que doem de olhar.Pior mesmo seria
escorregar.
Uma colega de trabalho vem e pergunta: como fazer para se conhecer? Os caminhos são muitos, mas a observação está presente em todos eles. Se observarmos como agimos, como nos posicionamos, como pensamos, podemos ter uma boa ideia de quem somos, do que crenças cultivamos sobre nós mesmos e do mundo, e até podemos entender algumas das coisas que nos acontecem (porque muitas das coisas que nos acontecem são consequências do que somos). Eu disse para ela pensar em meia dúzia de histórias importantes do passado, da infância inclusive. Histórias boas e más. Relatá-las, de preferência por escrito. Depois analisar: que papel ela ocupava nessas histórias? Em que papel ela se sentia menos e mais confortável? Os episódios que compõem a nossa vida nos ajudam a perceber como vemos o mundo.
Por exemplo, uma pessoa pode observar que só seleciona para contar histórias nas quais ela é a heroína, ela é elogiada, ela é destacada, ela é a melhor de todas. Isso nem precisa ser questão de passado: pode ser observado nos dia-a-dia. Que histórias escolhemos para contar para nossos amigos? Como nos descrevemos nessas histórias? No caso acima, é de se perguntar como anda a autoestima dessa pessoa: com certeza, ou muito baixa, ou muito alta. Como consequência, ela só escolhe viver momentos em que pode ser essa supermulher. Qualquer relacionamento, qualquer trabalho, qualquer desafio em que não se dê bem, é descartado. O risco, para ela, é que acabe sem opções.
A realidade é aquilo que queremos que ela seja.
Fui ao correio. O rapaz era de uma simpatia sem fim. Demonstrava calma e satisfação. Foi gentil ao perguntar se os selos que eu queria eram para cartões de Natal; sendo assim, vendeu-me estampas relativas à festa. Foi atencioso ao informar-me os preços de uma carta ao exterior, sem tentar me empurrar o serviço mais caro. Quando fui pagar, disse-lhe que procuraria algumas moedas. “Eu ficaria muito agradecido”, ele comentou. Dei o dinheiro, desejei boa semana e um feliz Natal. Com um sorriso no rosto, agradeceu e desejou-me um bom dia.
Nem bem saía do correio, uma pessoa que entrava atropelou-me na porta, ignorando totalmente a prática de que tem a preferência aquele que sai. Não fiz certamente uma cara muito agradável e resmunguei qualquer coisa. A esta altura do dia, já tento me convencer de que ela fez isso apenas porque estava quente e ela queria entrar com urgência no ar-condicionado. Talvez isso não justifique, mas vamos pensar que de repente ela estivesse passando mal, de repente estivesse atrasada para o compromisso mais importante da vida dela. E talvez o compromisso mais importante da vida dela fosse encontrar aquele atendente simpático. Aprender um pouco, com a diferença, a ser diferente.
Claro que, nessas horas, sequer pensamos que essas nossas concepções que aparecem como se fossem verdades inquestionáveis podem ter sido formadas apenas em um momento ou dois. Podem mesmo ter sido construídas sobre percepções tão fajutas quanto nossas certezas absolutas. Conheço dois ou três casamentos que não deram certo, então nenhum dará. E daí adiante todos os casamentos que eu souber que não deram certo vão me fazer dizer: “Viu? Casamento não dá certo mesmo!”, construindo essa convicção que pode me impedir de viver coisas lindas. Isso não vale só pra casamento… vale pra uma comida que provei duas vezes e não gostei, vale pra uma pessoa de quem à primeira vista não gostei, pra um lugar aonde tenho “certeza absoluta” de que nunca irei… e por quê? (Talvez devêssemos nos perguntar “Por que não?”)
Muitas vezes coletamos pistas falsas a respeito de uma pessoa. Geralmente, se eu já me acho um pouco rejeitado, tudo o que uma pessoa fizer eu vou enxergar por esse viés, ou ao menos estarei muito mais sensível à rejeição do que uma pessoa que não tem problemas de auto-estima. Uma pessoa com quem eu saio pra um encontro romântico não me liga no dia seguinte e pronto: É óbvio que ela não gostou de mim. Uma pessoa me diz uma palavra que eu levo a mal e pronto: não gosto desta pessoa, afinal ela também não parece gostar de mim. E por aí vai.
No filme Fatal (Elegy), David se deixa levar por duas crenças. Uma é esta de que casamento não dá certo. A outra é que seu romance com uma aluna trinta anos mais nova não tem como dar certo, por mais que os dois se amem. É triste ver, ao longo da história, como ele aprende que estava errado. Mas, pelo menos, ele aprende.
Pega-se o cotidiano da moça do chá mesmo: ela pode morar em um sugestivo prédio da Cristóvão Colombo, vizinho a uma loja com o indutivo nome de Leviathan (de Hobbes, alguém conhece?), e com duas janelas empilhadas, magras e compridas. Na janela de cima, uma senhora quase gorda limpa o vidro: ela é do exato tamanho da janela e pode ser vista dos pés à cabeça. Na janela de baixo, vazia, somente um gato gordo vigia os passantes, todo de preto, mal conseguindo ocupar a janela na horizontal.