Quinta-feira

Roxas, tão roxas

que doem de olhar.

Pior mesmo seria
escorregar.

Domingo

A praça, a cidade, o amor e a alma

Há alguns anos eu já tive essa sensação de que amava a minha cidade. A minha cidade tem uma praça no centro que particularmente me trazia essa sensação. A saudade ficava contida e explodia nesse encontro, meu e da praça. Havia velhinhos nos bancos, pintores, engraxates; havia cafés e senhoras neles reunidas para falar francês, atraídas pela Aliança Francesa que ficava ali perto. Havia árvores de um lado e McDonald’s de outro. Prédios históricos cor-de-rosa ou amarelos se destacavam por todos os lados de um shopping center e ofuscavam edifícios cinzas de pinturas descascadas. Para mim, era como se essa praça empurrasse para o lado o centro da cidade. As pessoas ali pareciam andar um pouco mais devagar e olhar umas para os olhos das outras. O rio ao lado embalava os caminhares, e o frio era capaz de deixar a praça ainda mais bela, mais típica, mais própria, única. Gorros, cachecóis coloridos e narizes vermelhos eram as flores da estação gelada. Mendigos se enroscavam em cobertores xadrez, tentando dormir ao som de cantos de passarinhos ou músicas latino-americanas. A praça tinha, para mim, uma alma: uma alma que eu nunca consseguia trazer para casa. Não importava quantas fotografias a praça pudesse me dar: só a proximidade era capaz de me mostrar a sua vida.

Segunda-feira

Autoconhecimento

Uma colega de trabalho vem e pergunta: como fazer para se conhecer? Os caminhos são muitos, mas a observação está presente em todos eles. Se observarmos como agimos, como nos posicionamos, como pensamos, podemos ter uma boa ideia de quem somos, do que crenças cultivamos sobre nós mesmos e do mundo, e até podemos entender algumas das coisas que nos acontecem (porque muitas das coisas que nos acontecem são consequências do que somos).

Eu disse para ela pensar em meia dúzia de histórias importantes do passado, da infância inclusive. Histórias boas e más. Relatá-las, de preferência por escrito. Depois analisar: que papel ela ocupava nessas histórias? Em que papel ela se sentia menos e mais confortável? Os episódios que compõem a nossa vida nos ajudam a perceber como vemos o mundo.

Por exemplo, uma pessoa pode observar que só seleciona para contar histórias nas quais ela é a heroína, ela é elogiada, ela é destacada, ela é a melhor de todas. Isso nem precisa ser questão de passado: pode ser observado nos dia-a-dia. Que histórias escolhemos para contar para nossos amigos? Como nos descrevemos nessas histórias? No caso acima, é de se perguntar como anda a autoestima dessa pessoa: com certeza, ou muito baixa, ou muito alta. Como consequência, ela só escolhe viver momentos em que pode ser essa supermulher. Qualquer relacionamento, qualquer trabalho, qualquer desafio em que não se dê bem, é descartado. O risco, para ela, é que acabe sem opções.

A realidade é aquilo que queremos que ela seja.

Terça-feira

Estranhamento

Cheguei, não havia ninguém em casa. O apartamento estava mudo e escuro, apesar do solaço que despontava lá fora. Estranhei o cheiro de fechado; faria dias que ele havia partido.
Correspondência em cima da mesa, junto com migalhas de pão. A toalha da mesa, a de plástico xadrez que eu detestava, ainda era a mesma de quando eu saíra. O banheiro. O banheiro estava… molhado? Alguém tinha escovado os dentes, se barbeado… ele? Restava uma opção: ele havia saído, viajado, ficado dias fora, e voltado; voltado naquela manhã, com pressa, sem tempo de ventilar as coisas. O relógio marcava dez pras cinco. Alguém colocou a chave na porta e começava a abri-la. Meu coração disparou e eu só vi aquela valise preta adentrando o apartamento. Por incrível que pareça, a conversa abordou assuntos comuns, lugares-comuns, mas nada ali estava sendo partilhado. Aparentemente, nada havia de diferente: trabalho, casa, trabalho. Nenhuma explicação para o cheiro de mofo, nenhuma explicação para as poucas mudanças ocorridas em duas semanas. Talvez, mesmo, eu estivesse esperando mudanças demais. Não havia nada de objetivo para perguntar e, à noite, uma chuva forte fez com que eu me deitasse mais cedo, apenas escutando os pingos, deixando passar os trovões que só depois vim a saber que ocorreram, em uma tempestade de verão. Dormi tranquila: era tarde demais para querer ouvir o que há tanto tempo não era dito.

Segunda-feira

E o mundo, como vai?

Fui ao correio. O rapaz era de uma simpatia sem fim. Demonstrava calma e satisfação. Foi gentil ao perguntar se os selos que eu queria eram para cartões de Natal; sendo assim, vendeu-me estampas relativas à festa. Foi atencioso ao informar-me os preços de uma carta ao exterior, sem tentar me empurrar o serviço mais caro. Quando fui pagar, disse-lhe que procuraria algumas moedas. “Eu ficaria muito agradecido”, ele comentou. Dei o dinheiro, desejei boa semana e um feliz Natal. Com um sorriso no rosto, agradeceu e desejou-me um bom dia.

Nem bem saía do correio, uma pessoa que entrava atropelou-me na porta, ignorando totalmente a prática de que tem a preferência aquele que sai. Não fiz certamente uma cara muito agradável e resmunguei qualquer coisa. A esta altura do dia, já tento me convencer de que ela fez isso apenas porque estava quente e ela queria entrar com urgência no ar-condicionado. Talvez isso não justifique, mas vamos pensar que de repente ela estivesse passando mal, de repente estivesse atrasada para o compromisso mais importante da vida dela. E talvez o compromisso mais importante da vida dela fosse encontrar aquele atendente simpático. Aprender um pouco, com a diferença, a ser diferente.

Sexta-feira

Fatal

Então eu vi este filme que me deixou pensando. Pensando no quanto muitas vezes desperdiçamos a vida por conta de nossas idéias fixas ou de nossas concepções a respeito de alguma outra pessoa. Às vezes nem tentamos porque achamos que não vale a pena. Não vale a pena casar porque casamento é instituição falida. Não vale a pena chamá-lo pra jantar porque ele não virá. Não vale a pena.

Claro que, nessas horas, sequer pensamos que essas nossas concepções que aparecem como se fossem verdades inquestionáveis podem ter sido formadas apenas em um momento ou dois. Podem mesmo ter sido construídas sobre percepções tão fajutas quanto nossas certezas absolutas. Conheço dois ou três casamentos que não deram certo, então nenhum dará. E daí adiante todos os casamentos que eu souber que não deram certo vão me fazer dizer: “Viu? Casamento não dá certo mesmo!”, construindo essa convicção que pode me impedir de viver coisas lindas. Isso não vale só pra casamento… vale pra uma comida que provei duas vezes e não gostei, vale pra uma pessoa de quem à primeira vista não gostei, pra um lugar aonde tenho “certeza absoluta” de que nunca irei… e por quê? (Talvez devêssemos nos perguntar “Por que não?”)

Muitas vezes coletamos pistas falsas a respeito de uma pessoa. Geralmente, se eu já me acho um pouco rejeitado, tudo o que uma pessoa fizer eu vou enxergar por esse viés, ou ao menos estarei muito mais sensível à rejeição do que uma pessoa que não tem problemas de auto-estima. Uma pessoa com quem eu saio pra um encontro romântico não me liga no dia seguinte e pronto: É óbvio que ela não gostou de mim. Uma pessoa me diz uma palavra que eu levo a mal e pronto: não gosto desta pessoa, afinal ela também não parece gostar de mim. E por aí vai.

No filme Fatal (Elegy), David se deixa levar por duas crenças. Uma é esta de que casamento não dá certo. A outra é que seu romance com uma aluna trinta anos mais nova não tem como dar certo, por mais que os dois se amem. É triste ver, ao longo da história, como ele aprende que estava errado. Mas, pelo menos, ele aprende.

Segunda-feira

Receitas

Ora, tudo pode virar um romance, uma poesia, um conto. É a modelo que aparece anunciando chá para emagrecer numa revista, o motorista de táxi, a menina que aguarda cirurgia no hospital... Todos têm uma vida, uma história. Mesmo se essas histórias não são interessantes, que importa? Inventa-se. Eu uma vez pensei em uma história...

Pega-se o cotidiano da moça do chá mesmo: ela pode morar em um sugestivo prédio da Cristóvão Colombo, vizinho a uma loja com o indutivo nome de Leviathan (de Hobbes, alguém conhece?), e com duas janelas empilhadas, magras e compridas. Na janela de cima, uma senhora quase gorda limpa o vidro: ela é do exato tamanho da janela e pode ser vista dos pés à cabeça. Na janela de baixo, vazia, somente um gato gordo vigia os passantes, todo de preto, mal conseguindo ocupar a janela na horizontal.

Podem-se traçar tantos paralelos na vida, alguém diria...

Para poesia, as palavras devem fluir com espontaneidade: jogam-se as palavras à medida que elas pedem para nascer, fortes, por vezes tão fortes que não precisam de articulações. O sentido não está em fazer sentido, tampouco em não fazer. O sentido está em se dizer com menos: não há espaço nem graça para explicar o que deve se explicar sozinho.
Rimas? Não necessariamente.
O bom da poesia é... brincar.
Brincar com os pontos
:
brincar
brincar
...
pular
pular pular as linhas
e os espaços


surgir do nada
ali.

c
o
n
c
r
e
t
i
s
t
a
construindo.
como
Cummings